


From me to you
by Fy.
De minha janela enquanto cozinho para as crianças,
em panelas de barro e metal,
vapores fazendo água escorrer pelo colo farto,
ouço a cadência da marcha constante e precisa,

as sandálias de couro gasto amarradas nos pés dos sujos guerreiros,
seus escudos de ferro estampados com a águia de grito lancinante,
a tensão de uma indefinição entre vida e morte,
como se um orgasmo súbito de terror e salvação
estivesse a ponto de irromper
junto com o estraçalhar de osso, pele e veia.
.
O céu incha-se de uma vermelhidão final,
odores coléricos de um tabaco excitante vibram num ar
que haurido de supetão pelas fêmeas,
traz um cio súbito , acalorado.
Pernas e coxas e flores tremem sôfregas e impotentes,
para sempre.
.
Os estandartes erguem-se solenes e tristes
enquanto a infantaria atravessa o vilarejo.
Tambores outrora líricos rugem dissonantes cantando
a saudade sofrida e desesperançosa
dos que desembainham com lágrimas as espadas,
numa corrida furiosa de encontro ao Armagedão,
rumo ao combate derradeiro contra o Deus de seus corações.
Mob
Renasceu há pouco
o homem.
Transgredido a dois
no caule tenro
da ternura.
Renasceu moleque
sorriso e caramelo
todo enfeitado de
arranhão e lama
no joelho da pelada.
E destino é coisa de rua,
de mesma rua:
vizinhos de alma-
pulando corda,
amarelinha: menina
pequena, vestido estampado.
Renasceu amor,
peão e pipoca,
selinho roubado
por baixo da cama.
Mob
Para a mulher com a flor azul.
Nos jardins suspensos dos seus olhos violetas
nascente de águias de sabedoria do alto de um inverno a renascer claridade
ramos quebradiços aflorando do púbis campestre
com a queimada de fogueiras secretas
brande-se um eco ancestral e o tambor
planta sonho instantâneo na nossa visão e voz de transe multicor
ressurgidos do vento inumano das eras
nossos antepassados de osso e armas
rechaçam os sombrios lares onde
a aurora sob o implacável jugo da clareza
define mar, ofício e vida
e na canção de roda de cada anjo na sombra mendicante
a rodar flutuanndo sobre crânios infantis de
loucas crianças (a urrar em vivas, sóis e luas)
há uma suave sedução de flores e risos
a inocentar o texto e sonho das torpezas
que lhes acrescentara o tormento de falso capuz
e é no escuro da alma no colo das fadas translúcidas
que enfim as asas gloriosas da ternura abissal
ensaiam seu passo majestoso em direção do insondável mergulho
ao centro quente de vitalidade fervente
do branco corcel cujos olhos são
duas ocas e espelhadas pérolas negras.
Aprendiz do espanto
Não deflorei ninguém.
A primeira mulher que eu vi desnuda
(ela era adulta de alma e de cabelos)
foi a primeira a me mostrar os astros,
mas não fui o primeiro a quem mostrou.
Eu vi o resplendor de suas nádegas
de costas para mim, era morena,
mas quando se virou ficou dourada.
Sorriu porque os seus peitos me assombraram
o olhar de adolescente desafeito
à glória da beleza corporal.
Era manhã na mata, mas estrelas
nasciam dos seus braços e subiam
pelo pescoço, eu lembro, era o pescoço
que me ensinava a soletrar segredos
guardados na clavícula.
Pedia
já estirada de bruços me chamando,
que eu passeasse meus lábios pelas pétalas
orvalhadas da nuca, eram lilazes,
com as gemas de leve eu alisasse
as espáduas de espumas e esmeraldas,
queria a minha mão lhe percorrendo,
mas indo e vindo, o vale da coluna,
cuidadosa de mim, trés doucement.
Ela me inaugurou o contentamento
inefável de dar felicidade.
Tanto conhecimento só podia
ser de nascença, hoje eu calculo.
Não era um saber de experiências feito,
mas quanta ciência para transmiti-lo.
Ela era de outras águas, a fontana
de trinta anos, que veio lá do Sena
com a sina de me dar a beber
na aurora dos seus olhos, nos seus peitos,
na boca musical, no mar do ventre,
no riso de açucena, na voz densa,
nas sobrancelhas e no vão das pernas -
o mel antigo da sabedoria
de que a libido cresce quando atende,
de que a tesão se acende na ternura,
que as ante-salas se prolonguem vastas
até estar pronto para entrar no céu.
Freguesia do Andirá, fim de 97
PRECE À GRANDE FAMÍLIA
Gratidão à mãe Terra, que navega noite e dia –
e a seu solo: rico, raro e doce
em nossas mentes assim seja.

Gratidão às Plantas, à folha voltada pro sol,
que se transforma com a luz
e pelos radiculares vistoso; em pé, firme
resistindo ao vento
e à chuva; sua dança está no grão espiral que brota
em nossas mentes assim seja.
Gratidão ao Ar, que sustenta o Andorinhão planador e
a silenciosa Coruja ao amanhecer. Sopro da nossa canção
puro espírito da brisa
em nossas mentes assim seja.

Gratidão aos Seres Selvagens, nossos irmãos e irmãs,
que ensinam
segredos, liberdades e caminhos; que
compartilham conosco seu
leite; íntegros, corajosos e atentos
em nossas mentes assim seja.
Gratidão à água: nuvens, lagos, rios, geleiras;
contendo ou liberando; fluindo totalmente
nossos corpos mares salgados
em nossas mentes assim seja.
Gratidão ao Sol: pulsante e ofuscante luz que atravessa
troncos de árvores e atravessa névoas e aquece
cavernas onde
ursos e cobras dormem – ele que nos desperta –
em nossas mentes assim seja.
Gratidão ao Grande Céu
que comporta bilhões de estrelas - e vai ainda além –
além de todos os poderes pensamentos
e ainda está dentro de nós –
Avô Espaço.
A Mente é sua Esposa.
assim seja.
após um prece Mohawk
(Em: re-habitar, ensaios e poemas, Gary Snyder, Trad. Luci Collin, Azougue Editorial).
Os grupos que tanto se interessam pelo sonho, psicanálise e surrealismo, prontificam-se também na realidade a formar tribunais que julgam e punem: repugnante mania, frequente entre os sonhadores. Em suas reservas ao surrealismo, Artaud ressaltava que o pensamento não se choca contra um núcleo do sonho, mas que os sonhos ricocheteiam sobre
um núcleo de pensamento que lhes escapa. Os ritos do peyotl, segundo Artaud, os cantos da floresta mexicana, segundo Lawrence, não são sonhos, porém estados de embriaguez ou sono. Esse sono sem sonhos não é daquele em que dormimos, mas ele percorre a noite e a habita com uma claridade assustadora que não é o dia, mas o Relâmpago: “No sonho da noite vejo os cães cinzas, que se arrastam para vir devorar o sonho”. Esse sono sem sonho, quem que não se dorme, é Insônia, pois só a insônia é adequada à noite e pode preenchê-la e povoá-la. Por isso reencontra-se o sonho, já não como um sonho de sono ou sonho desperto, mas como sonho de insônia. O novo sonho tornou-se guardião da insônia. Como em Kafka, já não é um sonho que se faz no interior do sono, mas um sonho que se faz ao lado da insônia: “Envio (ao campo) meu corpo vestido… Enquanto isso eu estou deitado em minha cama sob uma coberta marrom”. O insone pode permanecer imóvel, enquanto o sonho tomou para si o movimento real. Esse sono sem sonho onde no entando não se dorme, essa insônia que todavia arrasta o sonho até os confins da insônia, tal é o estado de embriaguez dionisíaca, sua maneira de escapar ao juízo.
(”Para dar um fim ao juízo”, In: Crítica e Clínica, Gilles Deleuze, Ed. 34).
“How wonderful is Death,
Death, and his brother Sleep! One, pale as yonder waning moon With lips of lurid blue; The other, rosy as the morn When throned on ocean's wave It blushes o'er the world; Yet both so passing wonderful!"
-Shelley, “Queen Mab”
Dei os cães para uso noturno
e por baixo de saias

as mãos passearam.
Sob identidades plácidas
eu acreditei que era um artíficie
e meu barro era a consciência.
Doei meu sexo,
não sou homem, mulher,
e nem as gradações.
Doei a mente tacanha
e a confusão estéril:
eu poderia dizer: o clarão que existe, sou eu,
mas seria uma meia-verdade.
Poderia dizer: eu,
mas seria uma meia-verdade.

Poderia dizer:
não acredito nos fantoches
que faço representar
diante de mim e da alma,
mas seria uma meia-verdade.
Sou alegre, triste
mas sinto que deixo o mundo.
Não quero ressuscitar
nem em corpo, nem na mente de ninguém.
Que eu deixe a encenação
para quem tem o talento.
Queria ter o dom
de dizer o silêncio,
assim haveria algum resto de verdade.

O meu coração não é mais terno,
deixou de existir como houvera:
Tela em branco onde algo
que não sei bem quem
pinta e tece o que quer.
É palimpsesto
onde as íntimas equações
do Universo operam
sua vida honesta
de geometria e fractais mirabolantes.
Nele vicejam a sacralidade
do meteoro, do tufo de terra,

a tabula rasa, a delirante águia.
Esperava prazer e convulsões
depois da consumação do que
se chamava vida.
Mas nasceu o puro deserto,
não o deserto terrestre,
mas algo assim de outra ordem.
Há que se cumprir os destinos mais loucos:
o de ser anacoreta do deserto cósmico -
somente mais uma sina.
A multiplicidade é gritante

a vitalidade incontível
sempre matando, nascendo.
Nada pessoal.
Não é hora de carinho
nem de ser macho ou fêmea,
de se lamentar
do descaso com a perfeição.
O que o bailar dos astros quer?
Quer se desdobrar
sem ter de se preocupar
com amanhã e memória.

A união, contudo, persiste,
apesar do afeto, persiste
o contato, nada pessoal.
É justo que tudo tenha
alma e santos anjos:
esferas, matos e colinas.
É justo que toda ordem![]()
de coisas dance e prospere,
tenha seu lugar e importância
no sentir do cosmo.
Eu troco minha vida
pelo deserto.
Cada coisa em seu lugar.
Escreve-se do alto de um prédio arranhando o céu com o esmalte descascado da dúvida, sem saber se essas pernas terão forças para descer galgando os passos descendentes que conduzem ao amanhã ou pelo menos ao logo após.
É madrugada e há aves no céu. Vê-se o redondil da Terra e seus 360 graus de negror e de cada fundo do horizonte ouvem-se os gemidos, ou pelo menos esse rumor incessante que vem da cidade, ou da terra, ou do ouvido retumbando.
A baba amarelada molha o cigarro que assumiu vida própria, entidade de fumaça – santa em um momento, diabólica no correr do tempo… mas o tempo acabou, extinguiu-se com o último planeta auto-luminoso ou com o último espelho de prata ou com a última víbora sinuosa enrodilhada no esqueleto vertebral.

Restam estas bolhas elementais que teimosamente insistem em ocupar partes avessas do corpo reclamando como pequenos tiranos espaços que jamais poderão ser seus. Resta queimá-las nos esgares de prazer e nas pontas em brasa, dilúvio celebratório, ode abissal às explosões da quase extinção total, ponte de madeira ou pelo menos aceno entre a carne e o nada.
Todos dormem abaixo na solidão do cimento. Pode-se em delírio eletromagnético ouvir e ver o que contam as cores das ondas transmissórias. Parte-se o corpo em pedaços portando cadências e nervosidades imprevisíveis e a gargalhada soa como uma casa de espelhos posicionada em uma lua qualquer de algum astro qualquer.
Faz falta um band-aid. É que as bolhas d’agua, e d’terra e d’fogo pipocam sulfurosas cantando seu metal pesado qual peste bubônica infalível, último esforço salvatório de um universo que não reconhece nele mesmo senão microesferas encarquilhadas cuja última proposta de barganha é a explosão nuclear fulminante e total das palavras seminais a germinar os óvulos em cada lâmina de grama e faca.

