Villa Romântico

2009 Novembro 18
por Mob

Vento Invernal

2009 Novembro 10
por Mob
 
 
 
gueixa2
 
 
 
Nos teus olhares intrigantes
em anoiteceres originários
 vi o punho de algum deus e como o teu
ele era humano.
mas os horizontes inscritos
pelas suas peles e cheiros
na vinícola vindimada de minhas veias
me fizeram esquecer:
 que na noite de um mês frio
 em que as gueixas cantavam
incessantemente as flores
maduras de suas cerejeiras
eu havia nascido de um útero
anônimo e branco de neve
 jamais apalpado e nem derretido
sob os sóis ambivalentes
de algum bioma esquecido
pelo romper das eras.
E flui a aceitação deste violento
silêncio da titânica música
ressoando nas esferas,
varrendo consigo as utilidades
e os acarinhamentos solenes,
versos em que a solidão
se dissolve na pureza virginal do instante
jamais tocado, imaculável
onde não há face que busque em gesto decorado
outra face para se fazer valer
contra o suspiro invencível
deste vento invernal.
MOb

 

 

 

A New Universe is Born

2009 Novembro 4
por Mob

 

 

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John Butler Trio – Ocean

2009 Novembro 3
por Mob

 

 

 

 

From me to you

by Fy.

Severidade

2009 Outubro 17
por Mob
de minha janela enquanto cozinho para as crianças,
em panelas de barro e metal,
vapores fazendo água escorrer pelo colo farto,
ouço a cadência da marcha constante e precisa,
as sandálias de couro gasto amarradas nos pés dos sujos guerreiros,
seus escudos de ferro estampados com a águia de grito lancinante,
a tensão de uma indefinição entre vida e morte,
como se um orgasmo súbito de terror e salvação
estivesse a ponto de irromper
junto com o estraçalhar de osso, pele e veia.
O céu  incha-se de uma vermelhidão final,
odores coléricos de um tabaco excitante vibram num ar
que haurido de supetão pelas fêmeas,
traz um cio súbito , acalorado.
Pernas e coxas e flores tremem sôfregas e impotentes,
para sempre.
Os estandartes erguem-se solenes e tristes
enquanto a infantaria atravessa o vilarejo.
Tambores outrora líricos rugem dissonantes cantando
a saudade sofrida e desesperançosa
dos que desembainham com lágrimas as espadas,
numa corrida furiosa de encontro ao Armagedão,
rumo ao combate derradeiro contra o Deus de seus corações.

 

 

De minha janela enquanto cozinho para as crianças,

em panelas de barro e metal,

vapores fazendo água escorrer pelo colo farto,

ouço a cadência da marcha constante e precisa,

aries

as sandálias de couro gasto amarradas nos pés dos sujos guerreiros,

seus escudos de ferro estampados com a águia de grito lancinante,

a tensão de uma indefinição entre vida e morte,

como se um orgasmo súbito de terror e salvação

estivesse a ponto de irromper

junto com o estraçalhar de osso, pele e veia.

.

 

O céu  incha-se de uma vermelhidão final,

odores coléricos de um tabaco excitante vibram num ar

que haurido de supetão pelas fêmeas,

traz um cio súbito , acalorado.

Pernas e coxas e flores tremem sôfregas e impotentes,

para sempre.

 .

Os estandartes erguem-se solenes e tristes

enquanto a infantaria atravessa o vilarejo.

Tambores outrora líricos rugem dissonantes cantando

a saudade sofrida e desesperançosa

dos que desembainham com lágrimas as espadas,

numa corrida furiosa de encontro ao Armagedão,

rumo ao combate derradeiro contra o Deus de seus corações.

 

Mob

 

 

Mulatu Astatke – My Gubel

2009 Outubro 6
por Mob

 

 

 

 

 

Por baixo da cama

2009 Setembro 12
tags:
por Mob

 

 

Renasceu há pouco

o homem.

Transgredido a dois

no caule tenro

da ternura.

 Renasceu moleque

sorriso e caramelo

todo enfeitado de

arranhão e lama

no joelho da pelada.

 E  destino é coisa de rua,

de mesma rua:

vizinhos de alma-

pulando corda,

amarelinha: menina

pequena, vestido estampado.

Renasceu amor,

peão e pipoca,

selinho roubado

por baixo da cama.

Mob

 

 

Machine Gun

2009 Agosto 29
por Mob

 

 

 

 

 

 

 

Nos jardins suspensos dos seus olhos violetas

2009 Julho 26

 

 

Para a mulher com a flor azul.

 

Nos jardins suspensos dos seus olhos violetas

nascente de águias de sabedoria do alto de um inverno a renascer claridade

ramos quebradiços aflorando do púbis campestre

com a queimada de fogueiras secretas

brande-se um eco ancestral e o tambor

planta sonho instantâneo na nossa visão e voz de transe multicor

ressurgidos do vento inumano das eras

nossos antepassados de osso e armas

rechaçam os sombrios lares onde

a aurora sob o implacável jugo da clareza

define mar, ofício e vida

e na canção de roda de cada anjo na sombra mendicante

a rodar flutuanndo sobre crânios infantis de

loucas crianças (a urrar em vivas, sóis e luas)

há uma suave sedução de flores e risos

a inocentar o texto e sonho das torpezas

que lhes acrescentara o tormento de falso capuz

e é no escuro da alma no colo das fadas translúcidas

que enfim as asas gloriosas da ternura abissal

ensaiam seu passo majestoso em direção do insondável mergulho

ao centro quente de vitalidade fervente

do branco corcel cujos olhos são

duas ocas e espelhadas pérolas negras.

 

 

 

Aprendiz do Espanto – Thiago de Mello

2009 Julho 14
por Mob

 

 

Aprendiz do espanto

Não deflorei ninguém.
A primeira mulher que eu vi desnuda
(ela era adulta de alma e de cabelos)
foi a primeira a me mostrar os astros,
mas não fui o primeiro a quem mostrou.
Eu vi o resplendor de suas nádegas
de costas para mim, era morena,
mas quando se virou ficou dourada.
Sorriu porque os seus peitos me assombraram
o olhar de adolescente desafeito
à glória da beleza corporal.
Era manhã na mata, mas estrelas
nasciam dos seus braços e subiam
pelo pescoço, eu lembro, era o pescoço
que me ensinava a soletrar segredos
guardados na clavícula.

Pedia
já estirada de bruços me chamando,
que eu passeasse meus lábios pelas pétalas
orvalhadas da nuca, eram lilazes,
com as gemas de leve eu alisasse
as espáduas de espumas e esmeraldas,
queria a minha mão lhe percorrendo,
mas indo e vindo, o vale da coluna,
cuidadosa de mim, trés doucement.
Ela me inaugurou o contentamento
inefável de dar felicidade.
Tanto conhecimento só podia
ser de nascença, hoje eu calculo.

Não era um saber de experiências feito,
mas quanta ciência para transmiti-lo.
Ela era de outras águas, a fontana
de trinta anos, que veio lá do Sena
com a sina de me dar a beber
na aurora dos seus olhos, nos seus peitos,
na boca musical, no mar do ventre,
no riso de açucena, na voz densa,
nas sobrancelhas e no vão das pernas -
o mel antigo da sabedoria
de que a libido cresce quando atende,
de que a tesão se acende na ternura,
que as ante-salas se prolonguem vastas
até estar pronto para entrar no céu.


Freguesia do Andirá, fim de 97

 

Prece à grande família – Gary Snyder

2009 Junho 22

PRECE À GRANDE FAMÍLIA


Gratidão à mãe Terra, que navega noite e dia –

e a seu solo: rico, raro e doce

em nossas mentes assim seja.


GarySnyder

Gratidão às Plantas, à folha voltada pro sol,

que se transforma com a luz

e pelos radiculares vistoso; em pé, firme

resistindo ao vento

e à chuva; sua dança está no grão espiral que brota

em nossas mentes assim seja.


Gratidão ao Ar, que sustenta o Andorinhão planador e

a silenciosa Coruja ao amanhecer. Sopro da nossa canção

puro espírito da brisa

em nossas mentes assim seja.


Indian

Gratidão aos Seres Selvagens, nossos irmãos e irmãs,

que ensinam

segredos, liberdades e caminhos; que

compartilham conosco seu

leite; íntegros, corajosos e atentos

em nossas mentes assim seja.


Gratidão à água: nuvens, lagos, rios, geleiras;

contendo ou liberando; fluindo totalmente

nossos corpos mares salgados

em nossas mentes assim seja.


Coyote

Gratidão ao Sol: pulsante e ofuscante luz que atravessa

troncos de árvores e atravessa névoas e aquece

cavernas onde

ursos e cobras dormem – ele que nos desperta –

em nossas mentes assim seja.


Gratidão ao Grande Céu

que comporta bilhões de estrelas -  e vai ainda além –

além de todos os poderes pensamentos

e ainda está dentro de nós –

Avô Espaço.

A Mente é sua Esposa.

assim seja.

após um prece Mohawk


(Em: re-habitar, ensaios e poemas, Gary Snyder, Trad. Luci Collin, Azougue Editorial).

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O Sonho da Insônia

2009 Junho 14

Os grupos que tanto se interessam pelo sonho, psicanálise e surrealismo, prontificam-se também na realidade a formar tribunais que julgam e punem: repugnante mania, frequente entre os sonhadores. Em suas reservas ao surrealismo, Artaud ressaltava que o pensamento não se choca contra um núcleo do sonho, mas que os sonhos ricocheteiam sobre gwendavies_theonlyonewhoknows1um núcleo de pensamento que lhes escapa. Os ritos do peyotl, segundo Artaud, os cantos da floresta mexicana, segundo Lawrence, não são sonhos, porém estados de embriaguez ou sono. Esse sono sem sonhos não é daquele em que dormimos, mas ele percorre a noite e a habita com uma claridade assustadora que não é o dia, mas o Relâmpago: “No sonho da noite vejo os cães cinzas, que se arrastam para vir devorar o sonho”.  Esse sono sem sonho, quem que não se dorme, é Insônia, pois só a insônia é adequada à noite e pode preenchê-la e povoá-la. Por isso reencontra-se o sonho, já não como um sonho de sono ou sonho desperto, mas como sonho de insônia. O novo sonho tornou-se guardião da insônia. Como em Kafka, já não é um sonho que se faz no interior do sono, mas um sonho que se faz ao lado da insônia: “Envio (ao campo) meu corpo vestido… Enquanto isso eu estou deitado em minha cama sob uma coberta marrom”. O insone pode permanecer imóvel, enquanto o sonho tomou para si o movimento real. Esse sono sem sonho onde no entando não se dorme, essa insônia que todavia arrasta o sonho até os confins da insônia, tal é o estado de embriaguez dionisíaca, sua maneira de escapar ao juízo.

(”Para dar um fim ao juízo”, In: Crítica e Clínica, Gilles Deleuze, Ed. 34).

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Não sou mais um cachorro, querida

2009 Junho 14
por Mob

How wonderful is Death,

       Death, and his brother Sleep!
     One, pale as yonder waning moon
       With lips of lurid blue;
       The other, rosy as the morn
     When throned on ocean's wave
           It blushes o'er the world;
     Yet both so passing wonderful!"

-Shelley, “Queen Mab”

Dei os cães para uso noturno

e por baixo de saias

love-is-give-and-take

as mãos passearam.

Sob identidades plácidas

eu acreditei que era um artíficie

e meu barro era a consciência.

Doei meu sexo,

não sou homem, mulher,

e nem as gradações.

Doei a mente tacanha

e a confusão estéril:

eu poderia dizer: o clarão que existe, sou eu,

mas seria uma meia-verdade.

Poderia dizer: eu,

mas seria uma meia-verdade.

cachorro-com-flor

Poderia dizer:

não acredito nos fantoches

que faço representar

diante de mim e da alma,

mas seria uma meia-verdade.

Sou alegre, triste

mas sinto que deixo o mundo.

Não quero ressuscitar

nem em corpo, nem na mente de ninguém.

Que eu deixe a encenação

para quem tem o talento.

Queria ter o dom

de dizer o silêncio,

assim haveria algum resto de verdade.

branco-deserto

O meu coração não é mais terno,

deixou de existir como houvera:

Tela em branco onde algo

que não sei bem quem

pinta e tece o que quer.

É palimpsesto

onde as íntimas equações

do Universo operam

sua vida honesta

de geometria e fractais mirabolantes.

Nele vicejam a sacralidade

do meteoro, do tufo de terra,

vermelho-deserto

a tabula rasa, a delirante águia.

Esperava prazer e convulsões

depois da consumação do que

se chamava vida.

Mas nasceu o puro deserto,

não o deserto terrestre,

mas algo assim de outra ordem.

Há que se cumprir os destinos mais loucos:

o de ser anacoreta do deserto cósmico -

somente mais uma sina.

A multiplicidade é gritante

miller-monk-in-desert

a vitalidade incontível

sempre matando, nascendo.

Nada pessoal.

Não é hora de carinho

nem de ser macho ou fêmea,

de se lamentar

do descaso com a perfeição.

O que o bailar dos astros quer?

Quer se desdobrar

sem ter de se preocupar

com amanhã e memória.

st-sisoy-2

A união, contudo, persiste,

apesar do afeto, persiste

o contato, nada pessoal.

É justo que tudo tenha

alma e santos anjos:

esferas, matos e colinas.

É justo que toda ordemst-sisoy

de coisas dance e prospere,

tenha seu lugar e importância

no sentir do cosmo.

Eu troco minha vida

pelo deserto.

Cada coisa em seu lugar.

Arranha-céu

2009 Junho 14
por Mob

 

 

Escreve-se do alto de um prédio arranhando o céu com o esmalte descascado da dúvida, sem saber se essas pernas terão forças para descer galgando os passos descendentes que conduzem ao amanhã ou pelo menos ao logo após.

É madrugada e há aves no céu. Vê-se o redondil da Terra e seus 360 graus de negror e de cada fundo do horizonte ouvem-se os gemidos, ou pelo menos esse rumor incessante que vem da cidade, ou da terra, ou do ouvido retumbando.

A baba amarelada molha o cigarro que assumiu vida própria, entidade de fumaça – santa em um momento, diabólica no correr do tempo… mas o tempo acabou, extinguiu-se com o último planeta auto-luminoso ou com o último espelho de prata ou com a última víbora sinuosa enrodilhada no esqueleto vertebral.

 

p e b

 

Restam estas bolhas elementais que teimosamente insistem em ocupar partes avessas do corpo reclamando como pequenos tiranos espaços que jamais poderão ser seus. Resta queimá-las nos esgares de prazer e nas pontas em brasa, dilúvio celebratório, ode abissal às explosões da quase extinção total, ponte de madeira ou pelo menos aceno entre a carne e o nada.

Todos dormem abaixo na solidão do cimento. Pode-se em delírio eletromagnético ouvir e ver o que contam as cores das ondas transmissórias. Parte-se o corpo em pedaços portando cadências e nervosidades imprevisíveis e a gargalhada soa como uma casa de espelhos posicionada em uma lua qualquer de algum astro qualquer.

Faz falta um band-aid. É que as bolhas d’agua, e d’terra e d’fogo pipocam sulfurosas cantando seu metal pesado qual peste bubônica infalível, último esforço salvatório de um universo que não reconhece nele mesmo senão microesferas encarquilhadas cuja última proposta de barganha é a explosão nuclear fulminante e total das palavras seminais a germinar os óvulos em cada lâmina de grama e faca.

 

 

Tomorrow Never Knows

2009 Junho 14
por Mob

Apareceu-me na vida como um vórtice de tornado

e a vida deixou de ser

uma entidade palpável e minha.

o segredo da alquimia passou de mercúrio

a ácido.

realmente o não-eu contém a textura

de miríades de universos paralelos

-a própria alma – múltiplaJLPoster2

como uma rosa psicodélica animosa

de cores mais livres que o ultravioleta.

Naquele momento nossos mortos

vestiram os trajes das estrelas universais.

Cantamos e dançamos como as crianças

no jardim do sol de sorriso brilhante.

Nus e plenos

com a rosácea da alma lambendo o lábio em cada poro de pele

a grama mais verde que o verde ideal

a lascívia libertária do dia do juízo

e o cafuné de todos os justos

nos meu cabelos infinitos

o Deus

ou todos os Deuses a um só tempo gargalharam

houve um gigantesco espasmo na medula

descobri as hemácias e meu folêgo

no fluir, no talo e nos botões de planta

Tornei-me santificadoTomorrowsWorld2

sob os auspícios de uma Graça inconcebível

a libertação uma chicotada

de êxtase dourado

bem no meio do lombo.

Nos ondulares

de uma transgressão coroada,

direi a todos que conheci a Face,

mas não sei,

profeta orfão de Tempo que sou.